A Informática nos anos de chumbo

Uma aura de romantismo cerca a época em que vivíamos de programar micros brasileiros de 8 bits. São raras, no entanto, as vezes em que se notam vestígios, na informática, do contexto político daquela época. Falamos da ditadura militar de 1964 a 1985, que a “Folha de S.Paulo” classificou em editorial (17/02) como “ditabranda” pela [...]

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Uma aura de romantismo cerca a época em que vivíamos de programar micros brasileiros de 8 bits. São raras, no entanto, as vezes em que se notam vestígios, na informática, do contexto político daquela época. Falamos da ditadura militar de 1964 a 1985, que a “Folha de S.Paulo” classificou em editorial (17/02) como “ditabranda” pela suposta suavidade com que controlou a oposição e cerceou os direitos políticos e individuais.

Pois bem, um dos órgãos policiais mais ativos de repressão e censura no Brasil daqueles tempos era o DOPS – Departamento de Ordem Política e Social. Eis que o redator do “Manual de Operação do Microcomputador R-470 Ringo” resolveu, por brincadeira, citar o órgão numa crônica (págs. 105-106) que, embora tivesse intenção de divertir, não deixa dúvidas sobre o ideário de boa parcela da sociedade da época – e que persiste nos dias de hoje, como nos prova o editorial da “Folha”.

O manual foi obtido em versão digitalizada, no site DataCassete. Segue a transcrição.

Dinheiro… pra que dinheiro?

Um certo programa foi pedir empréstimo em um dos vários bancos de memória do nosso querido R-470. Ao entrar no BANCO SAVE, famoso por salvar programas perdidos pelos integrados da vida, avistou aquela moça que fica na entrada de todos os bancos e deu um EDIT de sua linha que estava com problema. Ela, processando os dados obtidos, conclui com quem ele deveria conversar. Em seguida, deu um GOTO sr. $, o gerente.

- Bom dígito, como vai?

- Vai-se indo. Naquele FOR NEXT de sempre. Mas, em que posso serví-lo?

- Bem. Vou dar logo a DIM de meu problema…

O programa deu um PAUSE 100, como quem está encontrando dificuldade para falar, e prosseguiu.

- Estou precisando urgentemente de uma expansão de memória. A que eu tenho já não é suficiente. Estou ficando sufocado.

De repente, toca o telefone e o sr. $ dá um BREAK na conversa. Era a sua esposa. Estava lhe mandando um LIST do que queria que ele levasse para casa depois do serviço.

Desligou o telefone e deu um CONT.

- Voltando ao assunto. Quanto é que o senhor está precisando?

- Aproximadamente, 16 bytes.

- Entendo… E sua renda? É fixa?

- Não, é variável, mas não se preocupe. Às vezes, tenho tanto serviço que até preciso de um SCROLL.

- Então, não tem problema nenhum. Agora, o senhos vai responder um pequeno questionário. Não demora nada. É FAST.

- Tudo bem.

- Bem. Este questionário é divido em 3 partes. O senhor só prossegue se atender às exigências de cada fase. Entendeu?

- Entendi.

- Então, vamos à primeira. O senhor só passa para a 2.a fase se tiver um veículo, um imóvel e uma renda mensal superior à 2 bytes. Traduzindo, é o seguinte: Passa para a 2.a fase IF tem veículo AND imóvel AND renda > 2 bytes.

- O senhor tem tudo isso?

- Sim, tenho.

- Vamos, então, à 2.a fase.

Para passar à terceira fase o senhos precisa ter um vídeo-inverso ou caracteres coloridos. Traduzindo… passa para a 3.a fase IF tem vídeo-inverso OR caracteres coloridos.

- Eu só tenho vídeo-inverso.

- Ótimo. Chegamos, com isso, à 3.a e última fase.

É preciso que o senhor não tenha nenhuma ENTER no DOPS (Departamento de Opressão à Programas Suspeitos).

- Não, nenhuma.

- Eu logo vi que o senhor era uma pessoa de caracter.

- Obrigado. Mas… fui aprovado?

- Claro. O empréstimo é seu. Só preciso de mais algumas coordenadas de praxe. Seu nome por favor.

- REM Digit Cavalcanti.

- Profissão…

- Autônomo. Dou PRINT à GRAPHICS.

- Endereço…

- PLOT 10,20. É NEXT daqui.

- Agora, INPUT sua assinatura aqui e espere um comando para voltar e acoplar seu empréstimo.

- Muito obrigado.

E, muito feliz, o programa REM Digit Cavalcanti RUN ENTER para casa.

STOP

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Fotos históricas, mais uma do Google

Esta nem é tão nova – foi anunciada em meados de novembro. Mas é de se comemorar.
O Google passou a oferecer, em seu serviço de buscas online, o acervo de fotos e ilustrações da Time-Life. São 10 milhões de imagens, de 1750 (assim diz o Google!) aos dias de hoje.
Para pesquisar, você pode digitar a [...]

Bill Gates em capa de 1984

Bill Gates em capa de 1984

Esta nem é tão nova – foi anunciada em meados de novembro. Mas é de se comemorar.

O Google passou a oferecer, em seu serviço de buscas online, o acervo de fotos e ilustrações da Time-Life. São 10 milhões de imagens, de 1750 (assim diz o Google!) aos dias de hoje.

Para pesquisar, você pode digitar a palavra-chave, seguida pelo termo “source: life” (sem as aspas). Ou visitar o portal que o Google criou para a coleção, aqui.

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Na Unesp, uma calculadora de 15 mil dólares

Numa das pausas para café de um seminário sobre educação matemática na Unesp de Rio Claro (SP), quinta-feira passada, notei uma máquina enorme encostada num armário de aço. Do modo como estava guardada, só podia ver a tecla de raiz quadrada e o design que mais lembrava um velho terminal de computador, só que com [...]

reliquia na Unesp

A incrível calculadora de 4 operações de 1966. A foto é do site Vintage Calculators

Numa das pausas para café de um seminário sobre educação matemática na Unesp de Rio Claro (SP), quinta-feira passada, notei uma máquina enorme encostada num armário de aço. Do modo como estava guardada, só podia ver a tecla de raiz quadrada e o design que mais lembrava um velho terminal de computador, só que com uma tela bem menor.

De volta à internet, uma rápida pesquisa sobre “electronic desktop calculator”, aliada à minha memória fotográfica, revelou a identidade daquela máquina. O que o Departamento de Matemática da Unesp tem por lá é uma Friden EC-132, fabricada nos EUA entre 1965 e 1968.

A EC-132 é uma calculadora de quatro operações, com memória e raiz quadrada. Sua tela é um pequeno tubo CRT que exibe até 4 números com 12 dígitos. Seu peso total é de 19 quilos.

Além da tecla de raiz quadrada – justamente a que fez com que eu examinasse a calculadora com mais atenção – a EC-132 se destaca por ter teclas de ponto decimal e mudança de sinal com inscrições por extenso. Note que não há tecla de igual – a calculadora usa notação polonesa inversa (RPN), sistema que ficou famoso com as calculadoras da HP.

Raiz quadrada, só na 2.a versão

Raiz quadrada, só na 2.a versão

Segundo o site Vintage Calculators, a Friden EC-132 foi uma evolução da EC-130 (o sinal dessa evolução é justamente a tecla de raiz quadrada). E a EC-130 é tida como uma das primeiras calculadoras totalmente transistorizadas do mundo.

Em 1966, a EC-132 era vendida na Inglaterra por 810 libras (cerca de 2.250 dólares, no câmbio da época). A calculadora de inflação do site do governo federal americano indica que 2.250 dólares de 1966 tinha o mesmo poder de compra que 15 mil dólares em 2008.

Hoje, uma calculadora de 4 operações pode ser encontrada por 1,50 real. Como disse uma vez Bill Gates, se os carros tivessem sofrido a mesma redução de preço dos computadores…

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Discovery conta a história da web

A internet nasceu ontem. Mesmo assim, já tem uma história – e das boas, rechada de embates e intrigas. É o que mostra A Internet (Download: The True Story of the Internet), série com 4 episódios produzida pelo canal americano Discovery.
Não interessa ao Discovery relembrar a origem militar da internet, coisa que, a essa altura, [...]

bom humor que dá liga à trama

Heilemann: bom humor que dá liga à trama

A internet nasceu ontem. Mesmo assim, já tem uma história – e das boas, rechada de embates e intrigas. É o que mostra A Internet (Download: The True Story of the Internet), série com 4 episódios produzida pelo canal americano Discovery.

Não interessa ao Discovery relembrar a origem militar da internet, coisa que, a essa altura, todos já sabem. O ponto de partida é a web de Tim Berners-Lee e Marc Andreessen – e, mais especificamente, a briga entre Netscape e Microsoft pelos corações e mentes dos usuários de navegadores.

A Internet estréia na TV em 11 de setembro. Eu assisti à pré-estréia do primeiro episódio no site do canal, e fiquei impressionado: é um documentário dinâmico, com um toque de suspense e simulações ao modo de Linha Direta.

O que valem são os depoimentos de ex-funcionários de empresas como Microsoft e Netscape; os detalhes sobre pontos obscuros, como a reunião de 1995 em que a Microsoft ofereceu parcos 1 milhão de dólares pela Netscape (o fundador, Jim Clark, disse que a Netscape lhe rendeu 2 bilhões); e cenas que nunca tinha visto – como a das evasivas de Bill Gates perante o tribunal que julgava abusos cometidos pela Microsoft.

E A Internet promete mais: Google, eBay, Amazon e redes P2P estão no cardápio dos próximos episódios. Assista – e, se puder gravar, grave. A narração é do bem-humorado jornalista John Heilemann, da Wired. Confira a programação completa:

1. A guerra dos navegadores – Qui, 11.set, 23h (Reprise: Dom, 14.set, 19h)

2. A pesquisa – Qui, 18.set, 23h (Reprise: Dom, 21.set, 19h)

3. eBay e Amazon – Qui, 25.set, 23h (Reprise: Dom, 28.set, 19h)

4. O Futuro Digital – Qui, 2.out, 23h (Reprise: Dom, 5.out, 19h)

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Wozniak, o homem e a lenda

Imaginem a situação. Você é um jornalista de tecnologia e está na Califórnia, cobrindo um fórum patrocinado pela maior empresa de chips do mundo. E pela manhã, no caminho do hotel para o evento, você esbarra na rua com ninguém menos que Steve Wozniak, co-fundador da Apple e inventor do microcomputador Apple II, que teve [...]

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Imaginem a situação. Você é um jornalista de tecnologia e está na Califórnia, cobrindo um fórum patrocinado pela maior empresa de chips do mundo. E pela manhã, no caminho do hotel para o evento, você esbarra na rua com ninguém menos que Steve Wozniak, co-fundador da Apple e inventor do microcomputador Apple II, que teve muitos clones no Brasil.

Foi o que aconteceu com o amigo Mario Nagano, editor de testes do blog Zumo, que puxou uma conversa com Woz, como o chamam. (Sinceramente, fosse eu a encontrá-lo, talvez só conseguisse balbuciar um “obrigado”…) Desse rápido bate-papo saiu uma foto. Que me inspirou a deixar um longo comentário. Que depois decidi copiar e colar também aqui. E que segue abaixo.

Steve Wozniak é um nome que remete a muitas coisas. Geralmente lemos sobre ele nas notas de rodapé. Uma dessas notas dizia que ele usava a própria garagem para ensinar matemática às crianças do bairro – usando, claro, Macs. Coisa que pensei que um dia, também, pudesse fazer.

Mas fazer uma segunda faculdade por 5 anos – coisa que de fato fiz – é fácil. Ser Wozniak é outra história. E agora ele está aí, numa foto ao lado de um cara que conheço e sei que existe, usando uma camiseta pólo esgarçada, com muitos quilos a mais – fruto da dieta especial do país mais rico do mundo -, usando um veículo (um patinete Segway) que, fosse na barbárie paulistana, lhe daria não alegrias, mas muitas fraturas.

Steve Wozniak sempre foi, para mim, uma lenda. Agora, ao lado do Nagano, sei que ele existe, mas já não me importa. Ainda o imagino abrindo a garagem numa dessas manhãs geladas da Califórnia, capuccino na mão, ligando os computadores e esperando que venham as crianças. É o Mágico de Woz. É neste em que acredito. Longa vida a Woz!


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Computador é estrela de filme cinqüentão

Em meio à leitura de “Super Crunchers”, encontrei uma referência ao que bem pode ser o primeiro filme romântico em que um computador aparece como protagonista. Trata-se de ”Amor Eletrônico” (Desk Set), de 1957, estrelado por Katharine Hepburn e Spencer Tracy – além de Emmerac, o computador.
No filme, Bunny Watson (Katharine) é a chefe do departamento de pesquisas [...]

Desk Set

Em meio à leitura de “Super Crunchers”, encontrei uma referência ao que bem pode ser o primeiro filme romântico em que um computador aparece como protagonista. Trata-se de ”Amor Eletrônico” (Desk Set), de 1957, estrelado por Katharine Hepburn e Spencer Tracy – além de Emmerac, o computador.

No filme, Bunny Watson (Katharine) é a chefe do departamento de pesquisas de uma rede de TV. Ela e suas três assistentes têm como trabalho responder a dúvidas dos produtores e dos jornalistas, com base em uma biblioteca reservada repleta de estatísticas, citações e almanaques.

Eis que chega o computador – e, com ele, o “especialista em eficiência” Richard Sumner (Tracy), precursor do que conheceríamos depois como analista de sistemas. Como se pode esperar de um filme desses, da aparente rivalidade entre Richard e Bunny nasce o romance que dará sentido ao filme.

Desk Set - IBM

Mas há algo mais em “Amor Eletrônico”, que não teve pudor em estampar logo nos créditos iniciais um agradecimento profundo à IBM (ver foto acima).

Que, talvez, tenha a ver com o tom didático de certas cenas, como a que apresenta a chegada do mainframe à biblioteca – nela, uma zelosa operadora dá sucessivas broncas às assistentes de Bunny, por trazerem pó ao ambiente, deixarem a porta aberta e fumarem dentro da sala.

A impressão que se tem, a essa altura, é que o filme foi usado para treinar os trabalhadores a lidar com o recém-chegado “cérebro eletrônico”. (Isso, aliás, é curioso: em nenhum momento os atores falam a palavra “computador” – preferem “electronic brain”.)

Um discurso mais intencional aparece quando as assistentes conversam sobre o medo de perderem seus empregos para a nova máquina. Sinais de uma tensão moderna, que se resolve no final com algum humor e um tom conciliatório – que, sabemos agora, não foi de todo verdadeiro.

Como diversão, “Amor Eletrônico” é para apreciadores do velho cinemão, visto que é um filme bem datado. Sua melhor qualidade, hoje, é funcionar como registro de uma época em que o computador começava a fazer parte do imaginário das pessoas. E profetizar o dia em que, por meio de um terminal, qualquer um pudesse fazer perguntas em linguagem natural, recebendo uma lista com as respostas relacionadas.

Google, quem diria, nasceu em 1957…

Desk Set IBM

Fato curioso: “Amor Eletrônico” pode ser comprado em um DVD duplo, com um filme em cada face – o outro filme é “A Fonte dos Desejos”. Ou seja, lado B não é só coisa dos tempos de vinil! 

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