
Há duas políticas industriais em curso no planeta. Uma, ditada pelo Ocidente e seguida por boa parte dos países do mundo, baseia-se no discurso de respeito à propriedade intelectual. A outra é a da China.
Exemplo perfeito e acabado dessa diferença de percepção em relação a caminhos para o desenvolvimento é a calculadora Kenko KK-82MS, que o Versão Zero encontrou em uma loja popular de importados.
A KK-82MS é uma calculadora científica chinesa que copia o software e o design da calculadora Casio fx-82 MS. O modelo 82 é um dos mais utilizados em cursos de Exatas, tanto por causa do baixo custo como pela praticidade de uso – nela, as expressões digitadas aparecem numa linha superior do visor LCD, o que facilita a conferência.
No entanto, não é fácil aprender a usar a 82MS sem manual. Para piorar, conferimos antes da compra que o manual da Kenko é totalmente em chinês… Isso, no entanto, não foi problema, já que sabíamos que a Casio dispõe de uma cópia do manual da fx-82 MS em formato PDF, para download. Detalhe: em português.
Mas restava a dúvida: seria a Kenko uma cópia fiel da Casio? Para saber, tivemos de comprá-la, baixar o manual e usar seus recursos.
O resultado surpreendeu – ou, pensando melhor, talvez não devesse surpreender ninguém. As opções do software da Kenko seguem tal e qual os comandos disponíveis na Casio. Está tudo lá: o botão Mode, as memórias, as opções de reinício, desvio padrão e regressão linear. Tudo.
Mas não vá pensar que elas são iguais. Basta um pouco de uso para perceber que o acabamento da Kenko deixa a desejar. Suas teclas são mais duras, e a folga da capinha plástica protetora parece nos lembrar que a cópia do molde não foi tão boa assim.
E o preço? Na nossa loja popular, a Kenko custou R$ 9,99 (não, não havia troco para R$ 10). Já a Casio tem preços que variam de R$ 33,90 (Kalunga.com) a R$ 64,90 (Americanas.com).
Copistas, piratas e malditos piratas
Nós poderíamos aqui condenar o descaso chinês com as noções de propriedade intelectual (que preferimos, nesse ponto, chamar de propriedade de bens imateriais, pois intelecto é atributo de pessoas e os donos da propriedade imaterial citados aqui são empresas).
No entanto, há um viés mais curioso nessa história, que reflete um pouco a nossa história. Afinal, durante o período de Reserva de Mercado de Informática, nos anos 1980, também perseguíamos um modelo baseado em cópia (que, à época, em nosso país, não era crime), com a esperança de que um dia viesse a autonomia tecnológica.
Nosso modelo não resistiu aos ataques dos EUA, que ameaçavam com retaliações na balança comercial. Nem à crise econômica, que levou o país a uma hiperinflação. E nem aos ataques de grupos internos, que pregavam a adesão aos acordos internacionais de respeito à propriedade de bens imateriais.
A China, no entanto, vai bem obrigado. E mesmo acusada de pirataria, segue fabricando e vendendo seus produtos no mercado internacional, principalmente no Terceiro Mundo. Suas indústrias produzem tanto o MacBook de última geração (sob encomenda da norte-americana Apple) como calculadoras de qualidade duvidosa, como essa Kenko.
Enquanto isso, por aqui, nossas crianças seguem fazendo cálculos nas Kenko e, em muitos colégios, aprendendo mandarim, tida como a língua do futuro. E os crescidos são obrigados a ler disparates como o de Steve Jobs, que já disse certa vez que “os artistas medíocres copiam. Grandes artistas roubam”.
Tudo isso soa no mínimo irônico, não acha?













Vida de engenheiro não era fácil. Pelo menos até 1972, ano em que a