“Super Crunchers” e a ditadura das estatísticas

Das mudanças climáticas à performance no beisebol, os americanos são fanáticos por estatísticas. Talvez por isso, “Super Crunchers – Por que pensar com números é a nova maneira de ser inteligente” (Ediouro, 226 páginas, R$ 34,90) não deveria surpreender. Mas surpreende.
O livro do economista, advogado e professor da Universidade de Yale Ian Ayres reúne uma coleção de casos públicos [...]

Das mudanças climáticas à performance no beisebol, os americanos são fanáticos por estatísticas. Talvez por isso, “Super Crunchers – Por que pensar com números é a nova maneira de ser inteligente” (Ediouro, 226 páginas, R$ 34,90) não deveria surpreender. Mas surpreende.

O livro do economista, advogado e professor da Universidade de Yale Ian Ayres reúne uma coleção de casos públicos e privados em que a análise estatística desempenha um papel decisivo para a tomada de decisão.

Não vá pensar, contudo, que é um livro de estatística – em nome da fluidez da leitura, Ayres nos poupa dos cálculos.

O interessante é que tais histórias tornam-se, involuntariamente, bastante reveladoras da época em que vivemos. Como a do formulário de solicitação de emprego do Wal-Mart, em que uma única resposta inadequada pode significar a recusa da vaga. Ou a aprovação de roteiros de filmes baseada tão somente nas preferências consagradas pelo público.

Sua excelência, o computador

A estatística – cuja raiz vem do termo Estado, por ser o governo um colecionador de números por excelência – está aí há séculos. Por que, então, tanta atenção a ela justo agora? Ayres, pacientemente, explica: nunca houve tanto poder computacional para lidar com esses números. E nunca tantos números foram colecionados de uma vez.

Cartões de crédito, códigos de barras, celulares com GPS, localizadores de veículos, etiquetas com chip e muitas outras inovações do nosso tempo são todas fornecedoras de dados para governos e grandes corporações – que, com software adequado, são capazes de extrair padrões de comportamento e de consumo.

E para que? Simples: conhecendo nossas preferências, eles querem ou aumentar seus lucros, no caso das corporações, ou arrecadar mais impostos, no caso do governo.

Mais do mesmo?

O exemplo dos estúdios de Hollywood é emblemático. Com modelos matemáticos, alguns produtores acreditam prever se um filme será um sucesso ou um desastre. Tais modelos, contudo, baseiam-se na experiência prévia do estúdio e dos espectadores – assim, se um filme novo se parecer com algo que você já viu antes, não será por acaso.

Longe de ser crítico, Ayres é um entusiasta dessas técnicas. Mas acredita que as pessoas devem saber do que elas são capazes, para que possam decidir em questões que envolvam direitos civis, como a da privacidade. E aponta casos em que, na sua opinião, o uso da estatística leva a mais acertos do que erros, como na medicina e na educação básica.

Não dá para concordar com Ayres o tempo todo, principalmente no capítulo sobre educação – um descalabro recheado de noções reducionistas. Mas, com algum desconto, ”Super Crunchers” torna-se esclarecedor e até didático, pois prova que o Big Brother orwelliano, enfim, existe. Viver com isso pode ser até ruim; ignorar sua existência, contudo, é bem pior.

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