
De temperamento reconhecidamente difícil, o fundador da Apple Steve Jobs está longe de ter o perfil ideal para livros de auto-ajuda empresarial. Mas o editor da revista Wired, Leander Kahney, não se importou. Seu livro “A Cabeça de Steve Jobs – As lições do líder da empresa mais revolucionária do mundo” (Editora Agir, 266 páginas, R$ 34,90) é um relato das maiores conquistas profissionais de Jobs, temperado com listas de melhores práticas de gerenciamento, todas baseadas na personalidade forte do executivo.
Tal proposta soa ingênua – e talvez seja mesmo. Aliás, para quem já leu outras biografias de Jobs, esta (que, a rigor, nem pode ser chamada assim) parece ter sido feita para absolver o empresário das inúmeras acusações de desumanidade e crueldade com subalternos da qual foi alvo por toda sua carreira. ‘Ele pode ser como é, mas vejam – deu certo’, parece ser o recado de Kahney.
Não que o jornalista esconda os piores traços da personalidade de Jobs. Eles estão lá no livro, mas o que Kahney faz é explicar como eles foram corresponsáveis pelo sucesso que a Apple tem hoje. De certa forma, seu efeito é o de legitimar o estilo gerencial de Jobs, que no mínimo é discutível [para se ter uma idéia, eis duas das lições (pág. 160): "Jobs grita e berra, mas isso vem de seu desejo de mudar o mundo"; e "Inspire as pessoas através do medo e do desejo de agradar"].
Kahney diz que, ao chegar à meia-idade, Jobs moderou. Continua sendo uma personalidade fascinante que, com seu trabalho, moldou o modo como pensamos em computação pessoal. Haverá um Jobs brasileiro? Em genialidade, certamente já o tivemos, só que sem o ecossistema de investimentos e de conhecimento que só os Estados Unidos (e a Califórnia em particular, com sua poderosa indústria de armamentos) oferecem. Em temperamento, temos aos montes – e qualquer operador de telemarketing pode confirmar o que eu digo.
Como saldo final, “A Cabeça de Steve Jobs” é uma leitura agradável e por vezes reveladora. Apenas seja criterioso com as dicas de Jobs, se não quiser ser levado aos tribunais por assédio moral. Uma coisa é verdade: pelo menos para uma pessoa na face da Terra, elas funcionaram.



14 de April de 2009 às 14:14
Acho que há duas hipóteses para o sucesso de Jobs e o seu temperamento.
Em uma hipótese há relação causal e o temperamento de Jobs foi/é fundamental para o sucesso alcançado. Isso legitimaria o livro no gênero auto-ajuda.
Em outra hipótese, o temperamento de Jobs só joga contra e o sucesso foi alcançado APESAR dele é não por causa dele, o que só engrandeceria a genialidade criatuiva de Jobs. E nesse caso o livro é uma grande bobagem.
Qual das hipóteses é a correta? Em ciência temos que mudar uma variável e manter todas as outras constantes, para assim poder estudar o efeito de cada variável no resultado. Então basta voltarmos no tempo, no momento do nascimento do Jobs e dar-lhe um temperamento afável, mantendo tudo o mais inalterado. Se Jobs for um fracasso, realmente o temperamento é importante para o sucesso, mas se obtiver um sucesso ainda maior, então o temperamento só atrapalhou mesmo.
Pois é, isso é o chato das Ciências Sociais. Não podemos testar nossas hipóteses.
Mas minha impressão é que a segunda hipótese é a correta nesse caso.