Não é todo dia que se vê por aí uma avaliação de bicho de pelúcia – como o macaquinho aí de cima, à venda pela Positivo.
Acontece que este macaquinho não é um bicho qualquer. Ele faz parte da coleção Bichos de Florest@, que, com mais outros quatro bichos – elefante, urso, leão e girafa -, dá acesso a um portal de educação e entretenimento para crianças em idade pré-escolar.
O Versão Zero foi conferir o potencial dessa combinação de brinquedo e internet, que por 99,90 reais dá direito ao uso do portal por um ano – além do bicho, é claro.
Essa combinação é tão interessante quanto promissora. Ela é capaz de criar, na criança, uma âncora que a liga ao ambiente virtual da internet. A ponte entre os dois mundos é uma chave, que vem pendurada no pescoço do bicho e que traz uma senha de acesso ao portal.
Com essa senha, os pais e a criança devem se cadastrar no portal para ter acesso ao “mundo” relativo ao bicho adquirido. Como recebemos o macaco, fomos para o mundo dele. Os outros mundos, um para cada bicho, aparecem no menu principal, mas estarão trancados até que se consiga a chave de um novo bicho – um incentivo para que a criança complete a coleção.
Os jogos são simples e bem construídos, com uma interatividade que nada deve aos antigos CD-ROMs infantis. As instruções são narradas em duas vozes, uma masculina e outra feminina, que se alternam. Os desafios são organizados em grupos, ao longo da trilha do bicho, e em ordem crescente de dificuldade.
Até aqui, parece mesmo um jogo. Mas é fácil ver como a intenção educacional permeia todo o portal. A começar pelo cuidado com que lida com as situações de fracasso: em vez de ser chamada de perdedora, a criança é convidada a tentar de novo – não sem antes ganhar uma nova chance de acerto.
Games com afeto
No que diz respeito às atividades, o envolvimento afetivo com os personagens (o macaco do game e o macaco de pelúcia são os mesmos) colabora para que a criança tome para si a tarefa de resolver os desafios propostos. Há uma exigência crescente, em relação à criança, de mobilização de saberes de ordem, agrupamento, reconhecimento e categorização, típicos da educação pré-escolar.
Um bom exemplo são os números, que aparecem de várias maneiras. Numa hora, eles devem ser postos em ordem para a construção de uma ponte; em outro momento, para ajudar um detetive, é a soma o que importa; em outro ainda, a captura de frutas numa corredeira introduz a contagem de coisas diferentes, usando símbolos comuns (os próprios números) – uma operação nem sempre trivial para quem está começando a organizar sua compreensão de mundo.
Se está cheio de possibilidades, o ambiente também tem suas limitações (que, às vezes, não é do portal e sim da própria ferramenta que é o computador). Não dá, por exemplo, para fazer com que o sistema mapeie as estratégias pessoais das crianças durante a resolução dos problemas – uma informação quase sempre valiosa para o educador. Outro fato notável é a ausência, nos contextos dos jogos, de referenciais nacionais e geográficos.
Um exemplo: não vimos, no mundo explorado, uma única indicação de que estamos no Brasil, nem da diversidade de nossa geografia (numa hora estamos na selva, em outra podemos estar no Pólo Norte) nem da nossa fauna (ursos e girafas vêm de onde?). Além disso, o caráter solitário das atividades pode se tornar um obstáculo para a construção social do conhecimento (embora a brincadeira em grupo possa minimizar esse efeito).
Como complemento educacional, no entanto, o sistema dos Bichos da Floresta tem enorme potencial. Tanto para a criança, que se vê diante de desafios que ela é capaz de resolver, como para os pais, que podem acompanhar o progresso do filho ou da filha por meio do próprio portal. E sem expor a criança a situações comuns em outros ambientes da internet, como a interação com desconhecidos ou a exposição a propaganda, uma coisa tão comum em sites voltados para este público (e que deveria ser mais combatida).
No aspecto lúdico, uma surpresa: à medida que a criança avança, novas áreas da trilha do bicho são abertas. O prêmio pode ser uma música (para que ela ouça ou cante) ou uma estorinha. Além disso, há uma área para desenho e composição musical – e os trabalhos salvos podem ser conferidos a qualquer hora pelos pais.
A última questão que fica é o preço. Será que o bicho, apesar da boa qualidade, vale 99,90 reais? Pense de outro modo: imagine que metade desse custo pague o portal. Pelo equivalente a 2 passagens de ônibus por mês, tem-se na internet um ambiente seguro, monitorável e planejado por educadores. Diante dos riscos que a internet apresenta aos pequenos, não é pouca coisa.







26 de August de 2010 às 20:55
[...] Versão Zero [...]