Depois de uma bem sucedida negociação no eBay, o editor deste blog pôs as mãos em um aparelho há muito cobiçado: um TRS-80 Model 100.
O Model 100 é um micrinho que fez história por duas razões: foi o primeiro notebook de sucesso (seria, na verdade, o segundo; o primeiro lugar, pela cronologia, é do desconhecido [...]

Depois de uma bem sucedida negociação no eBay, o editor deste blog pôs as mãos em um aparelho há muito cobiçado: um TRS-80 Model 100.
O Model 100 é um micrinho que fez história por duas razões: foi o primeiro notebook de sucesso (seria, na verdade, o segundo; o primeiro lugar, pela cronologia, é do desconhecido Epson HX-20) e teve seus programas internos feitos por ninguém menos que Bill Gates.
Diz a lenda que o Model 100 fez sucesso principalmente entre jornalistas. Era fácil ver alguém teclando num Model 100 durante as Olimpíadas de 1984, em Los Angeles. Em entrevista ao Museu Natural de História Americana, Gates disse que mesmo em 1993 ainda se podia ver alguns jornalistas usando o aparelhinho.

8 kbytes por 600 dólares
Para quem não sabe, TRS é a sigla para Tandy Radio Shack. A Radio Shack é uma cadeia de lojas de aparelhos e peças eletrônicas que foi fundada em 1921. Em 1963, Charles Tandy encontrou a rede quase falida e a transformou novamente em um negócio lucrativo.
Em 1977, a empresa decidiu entrar no ramo de computadores pessoais. Nascia assim a linha TRS-80. O Model 100 é parte dessa dinastia. Foi lançado nos EUA em 1983 – há exatos 25 anos, portanto – por preços a partir de 599 dólares (base do modelo com 8 kbytes de RAM).
Você leu certo: 8 kbytes. O modelo que adquiri tem 24 kbytes, espaço insuficiente para um documento Word vazio. Mesmo assim, o micrinho é valente. Traz um interpretador Basic e quatro aplicativos (um editor de texto, agenda de endereços, agenda de compromissos e um programa de comunicação). Havia ainda um modelo com 32 kbytes, à venda, no lançamento, por 1.134 dólares.
Meu radinho de pilha
O melhor é que o micro funciona por horas apenas com 4 pilhas AA. Sua autonomia é de dar inveja a qualquer notebook: dá para usá-lo de 16 a 20 horas sem trocar as pilhas. Um LED vermelho do lado da tela avisa quando elas começam a ficar fracas.
A tela LCD tem 8 linhas de 40 caracteres e um botão para ajustar sua intensidade. Não há iluminação. Do lado direito ficam a chavinha liga-desliga e a entrada para o adaptador de tomada de 6 volts. Do esquerdo, os botões de controle do modem embutido (sim, ele tem modem de 300 bps!) e um leitor de código de barras.

Para que um leitor desses?, você pode perguntar. Segundo a história contada por Gates na entrevista ao museu americano , a japonesa Kyocera – que foi quem projetou este micro – e a Microsoft acreditavam que software poderia ser vendido na forma de cartões com código de barras. O fundador da Microsoft disse que a programação da ROM do Model 100 marcou a última vez em que ele realmente botou a mão na massa.
Tecladão de verdade
No uso, o Model 100 é surpreendente. Esqueça a ergonomia: para enxergar a tela enquanto digita, vai ter que se curvar. Mas o teclado, em tamanho natural, é robusto e suave. Teclas de cursor e de edição permitem o hoje banal Copiar, Colar, Cortar. Mas imagine isso em 1983…
Nos cálculos, o desempenho do processador 80C85 de 8 bits e 2,4 MHz (de novo, você leu certo: megahertz) não decepciona. Escrevi um programa de cálculo de fatorial e o resultado vem na hora.
Um dos testes consistiu em calcular a “área sob a curva” da função f(x)=1/x, no intervalo entre 1 e 100. Isso equivale a encontrar a melhor aproximação da integral numérica dessa função, no intervalo dado. Usamos, para tanto, o método dos trapézios. O resultado? A aproximação com 100 trapézios levou 8 segundos; com 1000 trapézios, 1m22s; com 10000 trapézios, 14m. O tempo foi praticamente a metade do que levou outro micro de 8 bits, o Microdigital TK85 (cujo teste você pode conferir aqui).
Meu próximo passo é escrever um programa para resolução de matrizes baseado no Método de Gauss – aí, talvez, o micrinho peça água.

Infelizmente este Model 100 não veio com os manuais. Mas não tem problema: muitos deles já foram escaneados e podem ser baixados do Club 100, site que reúne donos e fãs do Model 100. Mas, para o Versão Zero, basta a história: o Model 100 tem tudo para ser nossa maior aquisição.
(O Versão Zero agradece ao site Obsolete Technology pelas informações de época.)