» Micros
 
Retro-review: Milmar Laser IIc (1985)

Conheça um clone nacional do micro que sustentou as receitas da Apple por quase uma década, muito tempo antes do iPhone.

milmar_laser

Quem sonha em ter um iPhone talvez não possa imaginar como um micro tosco como o da foto tenha sustentado uma empresa como a Apple por tanto tempo.

Mas foi o que aconteceu. A família Apple II de computadores foi fabricada entre 1977 e 1993 e seu sucesso permitiu que a empresa capitaneada pelo carismático Steve Jobs acumulasse dinheiro para criar o Macintosh.

O preço de lançamento do Apple II, em 1977, foi de 1.300 dólares. E a aceitação foi plena. Na década de 80 praticamente toda escola norte-americana tinha uma sala de informática equipada com Apples.

milmar_logo

De olho nesse sucesso, uma leva de fabricantes brasileiros – protegidos pela reserva de mercado de 1982 – começou a fabricar clones do equipamento. Um deles foi a Milmar. O equipamento deste teste, um Laser IIc com número de série 2307, saiu com a etiqueta “Apple House” e foi comprado na loja Arapuã do Shopping Ibirapuera em 1988.

Era, de fato, um mercado promissor. Lembro-me de usar, no Instituto de Física da USP, um laboratório de informática com dezenas de Apples feitos pela CCE, movidos a disquete. Um monitor (de carne e osso) ficava na sala, controlando o empréstimo de softwares.

Também cheguei a vislumbrar o “futuro” desse mercado, ao ver, na diretoria de um grande grupo empresarial nacional, um clone taiwanês contrabandeado do Apple II, operando a todo o vapor. O ano era 1985 e o equipamento teria custado ao tal diretor cerca de 5 mil dólares.

Por fora, por dentro

O que a Milmar fez foi copiar, em 1985, o design do verdadeiro Laser IIc de 1984, incluindo até uma alça plástica embutida para transporte e que, desdobrada, servia também como apoio de mesa.

Ao contrário da versão original, o Laser brasileiro não tinha leitor de disquetes embutido. E, tal como a versão original, não tinha encaixe para placas de expansão: era preciso comprar um adaptador, por sinal bastante raro.

milmar_teclado

Por dentro, o que havia era o mesmo clone de Apple II dos outros modelos da empresa. Até o teclado foi reaproveitado dos modelos maiores. Prova disso é a inclinação “para trás” das teclas, bastante exagerada para um micro cujo teclado deveria ser quase plano.

Sobre as placas de expansão, é preciso explicar: na época, praticamente todo recurso novo dependia de um hardware novo. Para que o monitor saltasse dos 40 caracteres por linha para 80, por exemplo, era preciso uma placa.

Os Apples “regulares”, de gabinete alto, permitiam o encaixe de até 8 dessas placas, que podiam ter diversos fins. No magrinho Laser IIc da Milmar, a placa principal vinha apenas com o controlador do leitor de disquetes (com 2 tomadas na lateral esquerda). Atrás, havia conectores para joystick (tipo Atari), fita cassete (para gravar e ler dados e programas), saídas para monitor de vídeo e TV e o conector da fonte de alimentação, além do encaixe para o acessório de expansão.

milmar_maca1

Para um clone, o acabamento não era ruim. A Milmar até reproduziu a maçã colorida da Apple em um dos cantos do aparelho. O manual, no entanto, é de uma precariedade que dá dó: datilografado e com um decalque grosseiro na capa, o livrinho espiral tenta ensinar tanto a configuração do bicho como a linguagem Basic nativa. Não consegue fazer nem uma coisa, nem outra.

Para a época, bastante rápido

No uso, percebe-se a diferença que o Apple II fez na época, mesmo tendo um processador de – pasmem – 1 MHz. Para testá-lo, ligamos o Laser IIc a um televisor atual (com o uso da porta para monitor, que nada mais é que uma saída de vídeo comum).

Tal como fizemos com os testes de calculadora, criamos um pequeno programa em Basic para calcular o fatorial do maior número aceito pelo Laser. Esse número foi 33 e a razão está no tipo de dado utilizado para guardar o resultado: uma variável do tipo ponto flutuante aceita números com expoente máximo de 37.

milmar_run

A velocidade, comparada com a das calculadoras, é impressionante. O cálculo não levou mais que 3 segundos. A calculadora TI-66 (de 1983), no nosso teste, levou 49 segundos para entregar o fatorial de 69. Em teste semelhante, a HP-20S (de 1989) levou 3 segundos – mesmo tempo do Laser, cuja alma é de 1977.

No fim, a compra do Apple em 1988 foi uma má escolha, por três razões: as empresas já aderiam em massa ao IBM PC; as escolas, que nunca tinham tido micro, compravam modelos MSX da Sharp e da Gradiente, bem mais avançados; e a Apple americana já tinha dado seu recado aos fabricantes nacionais ao impedir que a Unitron clonasse o Macintosh.

Restou o equipamento – e o testemunho de uma época.

Avalie: 
Muito RuimRuimRegularBomMuito Bom
Compartilhe:
 
Dê sua opinião*Campos obrigatórios
Os comentários estão sujeitos à aprovação da editoria do site.
Conteúdos considerados ofensivos poderão sofrer modificações com prévio aviso. Tags permitidas: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong> .
 
Comentários
joão diz:
26 de April de 2008 às 12:13

quando você diz fita cassete para gravar dados, é uma usual, daquelas de rádio?

Robinson diz:
26 de April de 2008 às 15:57

Sim, é uma fita comum, gravada com um gravador mono. Basta que o gravador tenha uma entrada MIC e uma saída PHONE.

Jose Carlos Valle diz:
6 de May de 2008 às 23:32

Robinson. boa noite
Sou o curador do Museu do Computador, não sei se voce já ouviu falar dele. Mas, hoje fui a uma reunião na TIM. E no meio da reunião, saiu um comentario sobre este artigo da Milmar.
Eu vivi tudo isso, pois sou Geek desde os anos 60. E adoro tudo sobre TI e sobre historias, pessoas, que tambem curtem esses oldies micros.
E a pessoa que me deu seu blog era redator da ITmidia, e é fascinado por tudo que é antigo etc.
Tenho meu site do Museu e tambem meu blog que conto historias, fatos etc.
Tenho muita coisa no Museu. E esta semana fui ligar um RAdioshack model 100, com 4 pilhas, e funcionou… heheh
O Museu esta fechado, por motivos obvius.. falta de apoio.
o acervo todo esta em 3 galpoes de amigos.
Gostaria de manter contato com voce, trocar ideias, historias etc.
Abraços
Jose Carlos Valle -61, Itapecerica da serra – sp
skype: josecvalle

CARLOS CHAGAS diz:
19 de July de 2008 às 14:49

Onde posso comprar um MAC 512??

Robinson diz:
19 de July de 2008 às 15:48

Vai ser preciso garimpar muito, Carlos. Lembro de ter lido (onde?) que cerca de 200 Mac 512 foram “vendidos” (o que, legalmente, não poderia ter acontecido, pois o projeto nunca foi liberado pela SEI). Quem tem, não vende…

Robinson diz:
19 de July de 2008 às 15:54

Sobre o Mac 512, você pode ver as fotos de um – desmontado – no site http://www.tabajara-labs.com.br. Procure por Macintosh – Mac 512 da Unitron.

CARLOS CHAGAS diz:
19 de July de 2008 às 19:07

Sou louco pra ter um computador de 8 bits, pois na época tinha cinco anos e já pedia um pro meu pai mas ele achava que eu era muito pequeno pra isso e hoje em dia estou rodando pra achar um ELISA, APPLE II, MACINTOSH 518 e qualquer uma dessas maravilhas da época, já estar de bom tamanho.

Robinson diz:
20 de July de 2008 às 00:30

Você mora em São Paulo? Então dê uma garimpada nas lojas de usados da Rua Santa Ifigênia (incluindo suas transversais,como a rua Vitória). Eu já vi Apple II, MSX e Mac Classic para vender por lá. Às vezes aparece um ou outro no Mercado Livre. O jeito é ficar de olho!!

[...] >>> Teste: Apple Laser IIc da Milmar [...]

[...] como fiz com o Apple da Milmar, escrevi um programa em Basic para cálculo de fatorial. Aliás, digitar no TK é um pouco [...]

Wozniak, o homem e a lenda « // Versão Zero.blog.br diz:
22 de August de 2008 às 10:02

[...] Imaginem a situação. Você é um jornalista de tecnologia e está na Califórnia, cobrindo um fórum patrocinado pela maior empresa de chips do mundo. E pela manhã, no caminho do hotel para o evento, você esbarra na rua com ninguém menos que Steve Wozniak, co-fundador da Apple e inventor do microcomputador Apple II, que teve muitos clones no Brasil. [...]

Alex diz:
16 de June de 2009 às 17:05

Olá, tenho um desse também…mas sem a fonte. Vc pode me passar alguma informação sobre a mesma? Se possível a pinagem, pois preciso colocar o bichinho pra funcionar, estamos implementando um mini museu aqui onde trabalho.

Robinson diz:
16 de June de 2009 às 19:29

Vou ver o que tenho aqui!

Rodrigo diz:
8 de December de 2011 às 20:36

Caro Robinson. Peguei um Laser IIc sem fonte de alimentação. Teria como você me passar as especificações da fonte original? Grato pela ajuda.

 
Versão Zero
 
Computadores, gadgets, celulares, software, internet, testes e muito mais
 
Páginas
 
 
Categorias
 
 
Twitter
 
 
Busca
 
 
Arquivo
 
April 2008
S M T W T F S
« Mar   May »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  
 
Tags
 
 
Comentários