“Loucas por Amor, Viciadas em Dinheiro” (Mad Money, 2008) é um filme dos nossos tempos, coisa que a simples leitura da sinopse não revela. Pelos jornais, sabe-se o básico: que se trata de uma história de roubo a banco, praticado por três mulheres (Diane Keaton, Queen Latifah e Katie Holmes).
Há algo mais a tirar desse [...]

“Loucas por Amor, Viciadas em Dinheiro” (Mad Money, 2008) é um filme dos nossos tempos, coisa que a simples leitura da sinopse não revela. Pelos jornais, sabe-se o básico: que se trata de uma história de roubo a banco, praticado por três mulheres (Diane Keaton, Queen Latifah e Katie Holmes).
Há algo mais a tirar desse filme, feito para a Sessão da Tarde. Da história em três atos (a saber: motivação, execução e fuga), a primeira parte é que nos interessa. O que motivaria três mulheres comuns a desviar dinheiro velho de uma das unidades do Banco Central americano?
Vida no sofá
A personagem de Diane Keaton responde. Seu marido, representado por Ted Danson, perdeu um bom emprego – culpa do downsizing, diz. A meia idade o afasta de novas oportunidades e, depois de vários meses encostado no sofá, a vida luxuosa de classe média-alta desmoronou.
Diane busca, então, um emprego qualquer, desde que tenha benefícios sociais, e a única vaga que encontra é a de faxineira no Federal Reserve de Kansas City (para quem não tem idéia de como funciona o seguro-saúde nos EUA, recomendamos “Sicko”, de Michael Moore, em cartaz).
Aqui surge a opção do cinema americano de transformar uma questão social latente em comédia. Seu espelho involuntário poderia ser o filme espanhol “Segundas ao Sol” (2002), com Javier Barden, que traz a visão real do problema do desemprego na meia idade.
Trajetória dupla
O caminho espanhol é o da angústia. O americano – a partir do segundo ato -, o da fantasia. Nessa trajetória, nossos ladrões redefinem ética e moral, adaptando-os aos nossos tempos (“pegar notas do governo que seriam trituradas não é roubo”, diz uma ladra), ao mesmo tempo que preservam valores como confiança e amizade. O final, inverossímil, é prova disso.
Embora feito para divertir, “Loucas por Amor” também incomoda. Pois não é difícil imaginar que, naquela encruzilhada entre o real e o fantástico, o real tenha sido o caminho efetivamente trilhado. E provavelmente nossos simpáticos personagens tenham tido o mesmo destino dos estivadores espanhóis – uma vida em que cada dia é igual ao anterior, como um eterno domingo, enquanto a vida acontece na TV.