O filme “Jumper”, que estreou 28 de março, chamou minha atenção por causa da idéia original: em vez das já batidas viagens no tempo, o poder do protagonista consiste em se deslocar instantaneamente pelo espaço.
E é o melhor que se pode dizer desse filme, que está em cartaz em 210 salas do País e lidera a bilheteria nacional.
O roteiro, feito a seis mãos, abusa de chavões da linguagem cinematográfica, notadamente o que David Howard e Edward Mabley, em Teoria e Prática do Roteiro, chama de “pista e recompensa”. A foto da mãe que fugiu de casa, a namoradinha do colégio, a conversa sobre a desmaterialização de um prédio inteiro: são essas as charadas que explicarão a trama e que tentarão prender o espectador até o final.
Ao mesmo tempo, o roteiro não explica a história dentro da história: as origens de tal poder, seu plausível embasamento científico, os motivos da irmandade de Paladinos que persegue os Jumpers, tudo isso é varrido para debaixo do tapete ou citado de modo para lá de discreto. É como se a habilidade de desmaterializar/rematerializar fosse tão natural como é hoje, para a garotada, falar ao celular ou navegar pela internet, algo que já suspeitava quando escrevi esse outro post aqui.
‘Eu faço o que eu quero’
É um direcionamento ao mesmo tempo curioso e revelador. Pois o que marca o filme é justamente a oposição de gerações: os Jumpers são jovens, pegam o que querem (roubam), não trabalham, largam os estudos, não obedecem a ninguém. Seus documentos são o passaporte. Desdenham das tradições: tomam sol no topo da Pirâmide de Gizé e observam Londres dependurados no Big Ben.
Seus inimigos, os Paladinos, são mais velhos e cultos. Obedecem a regras e têm hierarquia. Seus documentos são os institucionais: identidades da CIA, da NSA, do FBI. Quando o Paladino Samuel L. Jackson grita ao Jumper que “todo ato tem conseqüências”, fica-se com a impressão que o Jumper não entendeu a frase.
E o ritual de matar um Jumper? Nada de revólveres, espancamentos, fogueiras. O Paladino simplesmente tira do bolso uma faca enorme e a enfia no coração do jovem inconseqüente – um ato simbólico, cuja mensagem, na minha opinião, sugere ser a morte dos sonhos juvenis pelo malvado mundo dos adultos.
Escola, essa velha inimiga
O alvo, no fundo, talvez seja a instituição escolar. Não é por acaso que os primeiros sinais de que a criança se reconhece como Jumper ocorrem aos 5 anos – ou seja, no início da escolarização. Aos 15, início do High School, o Jumper decide largar os estudos e sair de casa – e, vejam que coincidência, os EUA andam hoje preocupados com o alto índice de evasão escolar justamente nessa fase. E a certa altura ficamos sabendo que os Jumpers são perseguidos desde a Idade Média, justamente a época em que se inventou a escola como a conhecemos hoje.
De resto, é um filme água-com-açúcar, ou talvez só água: romance platônico, sem direito a beijo; cenas de ação e de embates, sem sangue; uma pseudociência que, natural e instantânea como tirar uma laranja do pé, dispensa explicações. Por causa da pouca violência física, Jumper foi classificado para crianças de 12 anos. Levando em conta o potencial explosivo da temática de embate entre gerações, a classificação deveria subir para 21. Mas não tem problema. O cruel disso tudo é que a garotada também vai envelhecer – ou melhor, se tornar um Paladino.


