
Eis a boa surpresa da semana: num gesto de coragem e desprendimento, o amigo e leitor Roger Yuzo doou uma calculadora Casio fx-19, com display de tubos de flúor, para o acervo de raridades deste blog (thanks, Roger!). Não demorou para que nosso laboratório se detivesse na análise da maquininha.

Estima-se que a fx-19 tenha sido lançada em 1976. Não foi a primeira científica da marca: a pioneira foi a fx-10, que tinha 10 funções – daí o nome. A fx-19 segue a mesma lei de batismo: são 19 botões de função, além das teclas numéricas e de operações básicas.
Quanto ao display, uma curiosidade: sua tecnologia é avó da utilizada nas TVs de plasma – a dizer, a capacidade de um gás emitir luz mediante a passagem de uma corrente elétrica. Na época, a única cor – possibilitada pelo uso do flúor – era a verde. Há espaço para 10 dígitos, mas a fx-19 usa apenas 9 – são 8 para números e um para o sinal negativo. No uso de notação científica, a capacidade é menor: são 6 dígitos para mantissa (com 5 casas decimais), mais 2 para o expoente.

É uma calculadora de peso – 180 gramas, sem contar as pilhas. Sua altura, de quase 3 centímetros, é levemente disfarçada pelo design. O painel escuro sobre a carcaça branca dá a ilusão de que seria mais fina. As pilhas – 4, do tipo AA – ficam num compartimento traseiro. Como alternativa, há na parte de cima um conector para alimentação pela tomada.
A fx-19 comporta-se de modo curioso em várias situações – sinais de uma época em que calculadoras custavam tanto quanto um bom computador atual, e, como estes, não eram livres de bugs. Um exemplo é quando se calcula x elevado a y: ao se digitar x e pressionar a tecla x^y (o circunflexo, aqui, representa o “elevado a” da notação de potências), a tela mostra um número maluco, que o manual chama de “valor intermediário”. E, apesar de a calculadora operar com números negativos em operações básicas, o x dessa função deve ser positivo – ela não resolve, por exemplo, -2 elevado a 2.
Erros de arredondamento também são freqüentes. Tentamos calcular o seno de 180 graus, que é a mesma coisa que calcular o seno de Pi radianos – 180 graus e Pi radianos são a mesma medida, dada em unidades diferentes.
Ajustamos a chave de unidade de ângulo em Deg (de Degree = grau), teclamos 180 e o botão “sin”, e obtemos zero, que é a resposta correta. Repetimos a conta, desta vez com a chave ajustada em Rad (de Radianos), e teclamos “Pi” (aparece o número 3,1415926) e “sin”, e temos como resposta 5,4 x 10 elevado a -8 – um número pequeno, sem dúvida, mas diferente de zero.
Provavelmente pelo mesmo motivo, o cálculo de uma função combinada com sua função inversa não resulta na função identidade. Assim, o logaritmo natural do número irracional e elevado a 1 não devolve 1 e sim 0,9999999.
A fx-19 também faz cálculos estatísticos básicos em uma variável, como acumular a somatória de x e do quadrado de x (para o cálculo da variância), bem como mostrar o desvio padrão para a amostra (n-1) e para a população (n). Aqui também temos algo curioso: as funções estatísticas são ativadas mudando-se a chave que seleciona a unidade de medida dos ângulos (grau, radiano, grado) para uma quarta posição. Dessa forma, seis teclas têm suas funções alteradas.
Como muitas calculadoras de sua época, a fx-19 tem memória para apenas um número. Curiosamente, ela não avisa quando a memória está em uso (outras calculadoras fazem acender uma letra M no painel).
Pelo menos um recurso merece destaque pelo pioneirismo: a manipulação de frações. O botão a b/c, que existe até hoje, permite fazer contas como 1/3 + 1/5 e receber o resultado na forma de fração, sem perdas por arredondamento. Como se vê, a versatilidade das calculadoras da Casio vem de longe…

Casio fx-19
Fabricação: 1976
Origem: Japão
Série: 6461160 (identificada por adesivo no compartimento da bateria)
Memória: 1
Preço no lançamento: não disponível



11 de March de 2008 às 16:26
Não tenho muito o que comentar sobre os 19 botões de função ou o seno de 180 graus.
Mas fico feliz por ter doado a calculadora a uma pessoa que se esforça para usar pelo menos 10% do potencial de sua cabeça animal.
Mestrado é pouco para você!
Grande abraço