Memória: 20 anos do fim do Mac brasileiro

Mês que vem faz 20 anos que a Unitron, fabricante do único clone brasileiro do Macintosh, teve o pedido de fabricação indeferido pelo governo do presidente José Sarney. Ainda me lembro: quando soube que haveria um Mac no Brasil, fiquei com água na boca – e, apesar do preço absurdo, sonhava em comprá-lo.
Era uma época [...]

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Mês que vem faz 20 anos que a Unitron, fabricante do único clone brasileiro do Macintosh, teve o pedido de fabricação indeferido pelo governo do presidente José Sarney. Ainda me lembro: quando soube que haveria um Mac no Brasil, fiquei com água na boca – e, apesar do preço absurdo, sonhava em comprá-lo.

Era uma época fronteiriça, que confrontava a vontade de desenvolvimento nacional com o respeito a patentes de fabricantes do Exterior. Por causa da reserva de mercado, fabricantes de microcomputadores estrangeiros não podiam vender seus produtos aqui – e governo e universidades trabalhavam com empresas nacionais na criação de computadores Made in Brazil – que, na prática, eram clones dos modelos de fora, só que muito mais caros.

O micro da Unitron, batizado de Mac 512, começou a ser desenvolvido em 1985 – portanto, 1 ano depois do lançamento do Mac original. Quando ficou pronto, foi comemorado como um marco da Engenharia Reversa brasileira – o termo descreve a abordagem técnica de se construir um equipamento similar ao original, sem copiá-lo.

Não foi isso que pensou a Apple, que conseguiu – sabe-se lá como – um protótipo da Unitron. Analisando-o, viu que o software interno era o mesmo, e fez um escãndalo dos diabos em Washington. O protesto ecoou no governo americano e fez com que fosse criada uma briga comercial entre Brasil e EUA: se o país não desistisse de piratear computadores, os americanos não comprariam mais sapatos e laranjas brasileiros.

A Unitron se defendeu, em vão. Um dos engenheiros envolvidos naquele projeto lembra que o protótipo obtido pela Apple era, de fato, um Mac original e não era o modelo fabricado aqui. Além disso, foi lembrado que a Apple não poderia se defender no Brasil porque não tinha patenteado sua tecnologia aqui – a lei estava a favor da Unitron.

O professor da UFRJ Ivan da Costa Marques conta em artigo* que por pouco a Unitron não teve seu projeto deferido. Segundo ele, naquele dia de março, o Conin – órgão do governo responsável por julgar os pedidos de recurso às decisões da Secretaria Especial de Informática – deveria reunir seus 16 conselheiros para a votação. Como o governo já tinha fechado questão sobre o assunto – melhor preservar sapatos e laranjas e sacrificar o micro -, 7 dos 8 conselheiros que representavam o governo votaram contra a Unitron (um se absteve). Dos represenantes da sociedade, 7 votaram a favor – um faltou. Sobrou para o presidente do Conselho, governista, que decidiu contra.

Estava feito. O projeto foi enterrado. A Unitron nunca mais voltou a ser o que era. A Apple conseguiu proteger suas patentes. E o mercado interno foi entregue totalmente aos clones de PC. Da época, sobrou apenas o catálogo do Mac 512, do qual saiu a foto acima.

*”O Caso Unitron e condições de inovação tecnológica no Brasil”

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“Jumper” e o naturalismo pós-tech

Melhor que o transporte, só o teletransporte. Por enquanto, a novidade que desafogaria o trânsito em São Paulo só existe nos cinemas – e mesmo assim ainda oferece riscos. Em “A mosca da cabeça branca” (The Fly, 1958), o criador de um teletransporte vaporiza um gato antes de transformar a si mesmo num ser híbrido [...]

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Melhor que o transporte, só o teletransporte. Por enquanto, a novidade que desafogaria o trânsito em São Paulo só existe nos cinemas – e mesmo assim ainda oferece riscos. Em “A mosca da cabeça branca” (The Fly, 1958), o criador de um teletransporte vaporiza um gato antes de transformar a si mesmo num ser híbrido homem-inseto. Na série “Jornada nas Estrelas” (Star Trek, 1966-69), por várias vezes os heróis só conseguiram ser rematerializados no último segundo, graças à dedicação do engenheiro Scott – e não sem algumas baixas.

Eis que surge agora “Jumper” (2008), filme que explora o sonho do transporte sem aborrecimentos como bilhete único sem carga ou trem lotado. No filme, que estréia hoje nos EUA (e em 28/03 no Brasil), um jovem tem certa anomalia genética que permite teletransportar a si e tudo em que se agarra (cadeira, guarda-sol, namorada) para qualquer lugar – até a Lua. O que ele não sabe é que tal anomalia tem sido transmitida há gerações, e seus portadores têm sido perseguidos e mortos por uma dinastia secreta.

É preciso ver “Jumper” para ter certeza, mas o trailler dá a entender que a habilidade de viajar de um lugar a outro em um segundo é só um pretexto para a produção de cenas de batalha com toques de “Matrix”. É pena.

Há nesses filmes novos, contudo, uma idéia mais perturbadora: a de que essas habilidades são dons (“gifts”) que não exigiram esforço algum para serem conquistados. Compare: antes, cientistas e engenheiros davam duro (e, às vezes, erravam feio); agora, ou se faz um upload no cérebro, ou se tem o “dom” – imagem de uma geração que ganhou de presente tecnologias como a internet e o celular, tal como se tira uma maçã da árvore. A conferir…

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